"... e estava assim na janela, quando ela veio por trás e se enroscou de novo em mim, passando desenvolta a corda dos braços pelo meu pescoço, mas eu com jeito, usando de leve os cotovelos, amassando um pouco seus firmes seios, acabei dividindo com ela a prisão a que estava sujeito, e, lado a lado, entrelaçados, os dois passamos, aos poucos, a trançar os passos, e foi assim que fomos diretamente pro chuveiro." "O corpo antes da roupa", afirma o personagem de Um copo de cólera ao narrar o que acontece numa manhã qualquer, depois de uma noite de amor, quando a aparente harmonia entre ele e sua parceira se rompe de repente. Tensa, contundente, a linguagem de Um copo de cólera alcança tal intensidade e vibração que faz desta narrativa uma obra singular da literatura brasileira, um clássico dos nossos tempos.
Opinião do leitor
Bela e cruel... Raduan Nassar constrói pela própria organização da novela o clima ácido vivido entre o casal de amantes. Não há paragrafação no capítulo em que o narrador, em primeiro pessoa, descreve a briga entre ele e sua parceira, deixando ao próprio leitor a sensação de desconforto, tensão entre os dois.
"Um copo de cólera" é uma novela que vale a pena ser bebida sem moderação.
Francisco Carrasco, São Paulo, 12/12/2009
Avalie este comentário
A pergunta que se faz sempre: por que Raduan não escreve mais? A minha resposta: há que se ter estômago de avestruz para viver e militar em ambiente tão autofágico, et putris!
José Donizete Fraga, Aparecida de Goiânia, 24/12/2003
Avalie este comentário
O livro é formidável em vários aspectos. Trata-se de um romance que ocorre na temporalidade de um conto, ou um conto que tem a densidade de um romance. A narrativa é inovadora, sua quase ausência de parágrafos e de pontos faz o enredo fluir numa velocidade vertiginosa. Contudo, parece ser uma obra presa ao contexto histórico em que foi escrita, ou seja, o da Guerra Fria. Os diálogos irascíveis dos personagens parecem não caber nos dias de hoje... Parabéns a todos!