
Objetos brincantes e a literatura para brincar
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Por Marta Lagarta
Ninguém inventa palavras, disse um escritor famoso, entrevistado na TV. Ele cismou que as palavras estão por aí, em todo canto, escondidas debaixo do pó. Espana espanando, elas aparecem. Será? Concordo e discordo.
Galto, rinocerontem, morangotango, dormedário, tartarruga, golfeinho, azulnicórnio, hipoitopótamo, borbolenta, caipivara.... Essas palavras até podem ter cara de desempoeiradas, mesmo.
E abracadabraço? O único abraço que só você pode dar em si próprio – palavra espanada, será?
E espraytantalho? O infalível espantalho que lança vigorosos jatos de spray de alho para afastar vampiros – palavra inventada? Desventada?
(Ilustração Bicho Coletivo)
Ninguém inventa palíndromos, me disse um palindromágico, ao telefone. Ele explicou explicadinho que palíndromos não se criam, se descobrem. Outra vez, concordo e discordo.
A dama gamada, a rara arara, o bolo ama o lobo, o voo do ovo, reler é ler, Raul é luar, ame o poema... São frases, quem sabe, encontradas, talvez. Mas por um outro lado...
Luza Rocelina, a namorada do Manuel, leu na Moda da Romana: anil é cor azul!
Assim assado, carne seca com ensopado. Assim assado, tudo junto misturado, espanado, inventado. Tudo no mesmo caldo. Quase tudo.
Pois bem, muito bem, bererêbembém. Comecei por essas duas brincadeiras, meus xodós. Agora vamos espichar a lista. Falando nisso...
Brincar de fazer listas!
Palavras bonitas: aldrava, andança, pirilampo, Pérsia, madrigal.
Palavras feias: cecidiófito, naviarra, estrambótico, narifúcia.
Engraçadas: salamaleque, mequetrefe, saracutico, borogodó.
Esquisitas: catrâmbias, geringonça, lambisgoia, daguerreotipo... e por aí afora. Por aí adentro.
Dentro do sapato tem um sapo? Dentro da serpente tem um pente? E dentro da escola muita cola? Dentro do armário o que é que tem? E na geladeira, tem geleia de ladeiras? Guloseimas deslizando nas mãos de quem abre a porta! Crianças gostam que se enroscam de disparates, de surpresas.
Serrote de pano, espada de espuma, canoa de pedra, lareira de gelo, panela de cera, sopão de confete, tambor de chiclete... Confete rima com chiclete. E combina?
Rima ou combina?
– Outra brincadeira com que a meninada se diverte! Meia rima com sereia; rima, mas não combina. / Luva não rima com pé; não rima nem combina. / Boné não rima com sol; não rima, mas combina. / Boneca rima com careca. E combina? / Cuca rima e combina com peruca. / Abraço combina com pelúcia?
Crianças um tiquinho mais crescidas combinam com prefixos fantásticos (muito obrigada, Gianni Rodari): minigigante, maxi-anão, bicaneta, trinóculos, subgatos, vicecão, descanivete, descanhão, semifantasmas, superfósforo... tantas histórias!
E para os ainda maiores: brincadeira com radicais e afixos greco-latinos. Pluviopetra, pseudocracia, zooteca, protogamia, geofilia, fotocéfalo, pirofagia, cacofobia, cronofone, neoludismo...
Vamos trocar de ilha: trocadilha, trocadilhos.
Mente, mas não esquece de lembrar a maravilhenta-abraçante educadora, escritora Fanny Abramovich, que tanto amava brincar de palavras. Também o poeta, tradutor e crítico literário José Paulo Paes, autor do pioneiro “Poemas para Brincar”.
Por fim firirifinfim, preprecipioposospos prepresenpentespes espespapanapadospos pepelapa espescripritoporapa inpinvenpentapadeipeira Soponipiapa Junpunqueipeirapa: urublue, jacared, yellowfante, blacktéria... (Comadre, querida, espero você aqui em casa para jogar pink-pongue e comer blackcalhau).
E agora, mesmo de mesmíssimo afinal, o baita presente criado pelo parceiro-poeta anagramático Leo Cunha.
Leiam enfim capivaras.
Cismei na palavra FIM
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Marta (Lagarta) Vieira – Poeta, escritora, atriz. Publicou pela Companhia das Letrinhas o livro "As fantásticas aventuras da vovó moderna"
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