
E agora: que escola queremos e teremos a partir de 2022?
A socióloga Lourdes Atié aponta os principais desafios, trazidos ou não pela pandemia, para pensar uma escola diferente da que temos hoje nos próximos anos
Por Lourdes Atié
Hoje resolvi convidar os leitores e as leitoras do Blog das Letrinhas a refletirem comigo algo que tenho pensado e que gostaria de saber se faz sentido para vocês. É sobre o uso ou não das máscaras que nos protegem da contaminação da covid-19. Sabemos que não é uma opção, mas uma obrigação.
Mesmo que as autoridades governamentais caminhem na contramão, quem acredita na ciência sabe que não há uma alternativa que não seja simplesmente manter a máscara no rosto para proteger cada um e a coletividade da contaminação do novo coronavírus. Mas não é assim que a juventude se comporta.
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Kelly Sikkema: Unsplash
Vejo que as crianças, até as bem pequenas, usam as máscaras sem nenhum problema. Elas estão completamente incorporadas ao seu cotidiano. Desde que começou a pandemia, não vi uma criança sequer chorando ou se negando a usá-las.
Meu neto tem quatro anos e, todos os dias, arruma a mochila, escolhe a roupa e as máscaras para ir à escola, tudo dentro do seu padrão estético peculiar, tudo bem! Fácil de usar e de conviver com ela no rosto. Joaquin desde setembro vai à escola em Barcelona, sem nem um dia de queixa. E, como ele, todos os seus amigos. Aqui no Brasil, nas ruas, não tem sido diferente.
No entanto, ao contrário das crianças, muitos jovens no Brasil se recusam a manter as máscaras em seus rostos. Quando não está apenas decorando o queixo, simplesmente não existe. Não aceitam usá-la. Estão aglomerados nas ruas, nas festas, nas praias. Apresentam uma postura completamente individualista e negacionista. É neste cenário, de norte a sul do Brasil, que assistimos às mesmas cenas.
O que me faz perguntar – o que nós educadores podemos falar sobre isso, que não seja apenas reverberações do que exaustivamente aparece nas mídias sociais? Entre a criança que usa e o jovem que se recusa a usar a máscara facial em tempos de pandemia, o que podemos olhar com coragem sobre como, de alguma forma, estamos contribuindo para que isso aconteça?
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Imagino que estejam pensando: “só falta dizer que agora a culpa desse negacionismo da juventude é do professor...” Calma! Antes que comecem o tal “cancelamento”, tão na moda ultimamente, desafio a pensarmos juntos/as sobre este cenário, porque sabemos que não existe uma única causa para tal atitude da juventude brasileira, que mesmo com o aumento de morte pela covid-19, segue parecendo não se importar. É como se nada os afetasse, além do prazer de achar que têm o direito de apenas fazer o que têm vontade.
Tenho pensado que a escola, de um modo geral, tem um modus operandi que é assim: quando os alunos são pequenos, tem todo um esforço para aprender a brincar com o colega, compartilhar os brinquedos, aprender a conviver. Mas este contexto acontece com eles e somente entre eles. As escolas têm muitas dificuldades de desenvolver projetos com crianças de idades diferentes, de segmentos escolares diversos.
O tempo vai passando e aquela camaradagem que existia entre os pequenos vai ficando para atrás, na medida em que crescem sem qualquer convivência com os maiores, com exceção daqueles que têm irmãos mais velhos.
A escolaridade avança, assim como as responsabilidades de cada aluno em cumprir todas as tarefas a ele delegada. O tempo de brincar vai sendo gradativamente reduzido, até desaparecer. O que era aprender a brincar junto vai sendo gradativamente substituído pelo salve-se quem puder. E, ao final da escolaridade básica, a frase que os professores mais escutam é: “vai cair na prova?” ou “vale quantos pontos esta tarefa?”.
Como se todos os alunos partissem do mesmo ponto, tivessem as mesmas histórias, condições e motivações, e que bastasse um esforço individual para chegar lá. Onde? Ter uma grande foto sua na entrada da escola ou em algum outdoor na cidade. É isso que realmente importa?
Somos nós que ensinamos para nossos alunos que o que importa são os resultados individuais que conseguirem alcançar e, depois disso, claro que têm o direito de pensar em si mesmos em primeiro lugar.
Mas também não posso esquecer que os pais são grandes parceiros da escola neste processo. Cobram dos seus filhos resultados o tempo todo, como se fossem apenas números, como um dia um jovem me contou numa escola privada de Curitiba, quando fui conversar com as turmas do ensino médio.
Existem também os pais que abandonam e aqueles que não sabem dar limites, pois “seus bebezinhos” tudo podem e precisam ser protegidos de qualquer frustração.
Então, me desculpem se estou generalizando ou sendo muito dura, mas já viajei muito pelo Brasil (antes da pandemia), em diferentes realidades, e o contexto aqui desenhado é recorrente. Peço que não julguem nem busquem se defender de algo com que tenham se identificado aqui. Peço apenas que reflitam se não pode ser uma possibilidade.
E como podemos mudar esta história? Os tempos pandêmicos mostraram que nossa sobrevivência está na capacidade de adaptação, de transformação, de foco no coletivo e de saber enfrentar os novos desafios, olhar como se fosse pela primeira vez e acreditar que podemos fazer melhor.
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Onde foi parar aquela camaradagem da infância, conforme a qual, depois de uma briga, era ótimo fazer as pazes para poder voltar a brincar juntos? Quando foi que “estar juntos” deu lugar apenas para o “eu vou me dar bem”? O que de fato estamos ensinando quando transformamos as escolas em vitrines para exibir seus melhores alunos? Que qualidade de educação estamos fazendo?
Infelizmente, acho que estamos ensinando o que não deveríamos ensinar. De nada adianta termos os discursos do “politicamente correto” e, em atitudes, ensinarmos outra coisa. Vamos centrar nossa reflexão na qualidade de ser humano que estamos entregando para o mundo.
Afinal, crianças e jovens são mais do que resultados. Não são experimentos ou peças de investimentos. São pessoas que aprendem com outras pessoas a terem um sentido responsável no mundo em que vivem. E este sentido é coletivo, planetário, ético e comprometido com o bem-estar social de todos.
Não tem a menor importância se aquele seu aluno passou na melhor universidade do país. Isso é muito pouco se a maioria dos jovens da mesma idade dele não teve acesso às mesmas condições de estudo.
Não é a foto no banner da porta da escola que faz a diferença, mas a quantidade de Greta Thunberg como modelo inspirador que seremos capazes de ajudar a formar, que entende que não há vitória individual. Assim, com certeza deixaremos de apenas lamentar a alienação da juventude e nos orgulhar de termos trabalhado para mudar o cenário nacional e, consequentemente o mundo.
Que tal pensarmos sobre isso?
Lourdes Atié é socióloga, consultora de educação e trabalha com formação de professores.
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